HISTÓRIAS DO GRUPO MARIA DÉIA 

 

NOSSA EXPERIÊNCIA 

 

Alberto Chicayban

 

O Grupo Maria Déia não apareceu sozinho, foi parte de um pequeno movimento de resistência que começou dentro da "periferia" da classe musical, por assim dizer. Este movimento de "periferia" tinha idéias muito interessantes (mesmo sendo ignorado pelos historiadores oficiais da MPB da época e. da mesma maneira pelos atuais, cujo interesse constante é a cultura globalizante da chamada "música pop" ou do "rock" (que acabaram virando a mesma coisa). Por que chamamos aquele impulso de "movimento de periferia"? Porque ele começou fora das gravadoras, das televisões e das rádios, usando um circuito de produção e exibição independente. Por exemplo, as idéias do Quinteto Armorial, fundado pelo violinista Cussy de Almeida em Pernambuco, associado ao Movimento Armorial de Ariano Suassuna, cuja missão era estudar as tradições populares de Pernambuco para a criação de uma arte de bases solidamente ancoradas no território, transmitiram a diversos músicos a vontade de procurar outras bases para realizar trabalhos de perfil brasileiro . Nesse sentido é possível citar também as intuições do Grupo Vissungo, dos excelentes Antonio Espírito Santo e Lula Espírito Santo, fundado no Rio de Janeiro, dedicado às pesquisas no campo afro (sobretudo em relação aos cantos negros de trabalho, os chamados vissungos, e também em relação ao jongo) para realizar composiçoes inéditas. O Grupo Maria Déia do seu lado era influenciado pelas idéias de Villa-Lobos, Francisco Mignone, Guerra-Peixe, Radamés Gnatalli e outros grandes mestres, que ensinaram a estudar as estruturas musicais e literárias da tradição brasileira em geral e compor com base nas mesmas. Nos interessávamos também pelas musicas ibéricas e latino-americanas (nao apenas do Nordeste do Brasil, como muita gente apressada imaginou a partir do perfil de cangaceiro que tinhamos escolhido como símbolo por causa da idéia de resistir a qualquer custo) e compor ex novo a partir delas. Seria possivel citar ainda entre os nome desse movimento "de periferia" a Banda de Pau e Corda; o excelente violonista e compositor Gibran Helayel; o conjunto de choro Galo Preto; os violonistas Claudio Jorge e Roberto Nascimento; o compositor e pianista Antonio Adolfo (produtor do primeiro disco independente), os compositores Bia Bedran e Vitor Larica (músicos do Bloco da Palhoça) o ótimo Grupo Água Clara, além de diversos outros. Aqueles grupos e personalidades tinham, apesar das diferenças, algumas coisas em comum: a) evitar a "musica pop como influencia (porque sabíamos que ela não era outra coisa que um instrumento de colonização); b) combater com os instrumentos da Arte a ditadura militar que estava destruindo o Pais enquanto vendia a imagem de "salvadora"; c) resgatar a independência do músico em relação à imagem do "cantor" como unico responsável pela criação da Música (um mito que virou praga) - era a época do desbunde, daquilo que chamavam com a expressão divino-maravilhoso associado ao "rock" que obrigava (e obriga) à imagem do palhaço-músico que salta como uma perereca com a guitarra pendurada para agradar à platéia, com trabalhos estereotipados segundo o "mercado global", muito mais cenicos do que musicais. Não queríamos aquele fim, tínhamos uma dignidade a manter, mesmo tendo naquele tempo vinte e poucos anos. O nosso movimento gerou também duas coisas importantes: a criação da Sombrás (graças à ajuda de artistas verdadeiros e combativos como Sidney Miller, Sergio Ricardo, Aldir Blanc e alguns outros), que determinou a total modificação do sistema de direitos autorais no Brasil) e o "disco independente" - tendência à qual o Grupo Maria Déia se filiou imediatamente.  Na nossa antiga sede de ensaios em Santa Teresa, na Rua Miguel Rezende, naquela época casa de Chico Moreira e de Beatriz Medina, discutimos muito, fizemos alquimias musicais brasileiras e latino-americanas. Pudemos somar  experiências com colegas criativos como Aloysio Iaggi, Nelson Guerchon, Ronaldo Florentino, Luis Duarte e Carlinhos Queiroz, cada um com uma bagagem especial de conhecimentos e influencias diferente. Com a ajuda de dois amigos que se ofereceram para produzir o disco, Ailson Solano da Rocha, um grande animador cultural, e Aloysio Iaggi, exatamente um dos primeiros integrantes e fundadores do grupo, pudemos realizá-lo. Do ponto de vista pessoal posso comparar o tempo passado dentro do Grupo Maria Déia a uma espécie de mestrado ou doutorado, porque pude aprender o que nenhuma escola de música poderia ensinar, devido  à quantidade de influencias diferentes com as quais tivemos contato. Por esse motivo acho que até hoje o trabalho do Grupo Maria Déia é considerado "pernóstico" (aliás, um jornalista chamado Saroldi utilizou mesmo este termo para nos definir) e "elitista" (como alguns "príncipes" e "ideólogos" do desbunde nos classificavam pela rejeição às "maravilhas" da música pop). Um famoso artista da Tropicália para definir o Grupo Maria Déia utilizou a expressão (mais benévola) "burlesco". Nem o jornalista nem o artista se deram ao trabalho de escutar o que fazíamos, como de resto acontecia com a turma do mundo da "discografia oficial". Não creio (Chico Moreira é da mesma opinião) que tenham mudado para melhor, apenas envelheceram: continuam trabalhando para as multinacionais como autênticos neo-liberais, sempre à favor da "melhor oferta" e das calças (alheias)  abaixadas. Por isso tudo acho muito difícil o interesse em relação ao trabalho do Grupo Maria Déia por parte de uma área de produção discográfica derivada do setor multinacional que sempre preferiu virar a cara para o outro lado. Porém (dou a boa notícia a vocês): estamos trabalhando para colocar à disposiçao das proximas gerações o trabalho realizado pelo Grupo Maria Déia. Estamos começando outra vez. 

 

 PASSADOS TRINTA E TANTOS ANOS

 

Chico Moreira 

 

É interessante observar que, passados trinta e tantos anos da criação do Grupo Maria Déia, os motivos que nos incentivaram à época a estar nos palcos  continuam presentes. Naqueles duros tempos dos Anos 70, em que sair às ruas com um simples livro nas mãos era perigoso, existia uma evidente necessidade do artista de se posicionar de maneira clara e objetiva sobre o comportamento da sociedade e de seus condutores. Vários movimentos ocorridos naquele período testemunham este fato. Porém, essa necessidade, a partir de certas práticas adotadas pelos meios de comunicação depois dos anos oitenta, foi aparentemente diluída ou até transformada em atitudes extremas de muitos desses participantes, tornando cada vez mais difícil uma atuação artística sinceramente comprometida com a sociedade como um todo e com o ambiente artístico em particular. Mesmo reconhecendo a contínua necessidade de trabalhos com este perfil, era a cada dia mais difícil viabilizá-lo economicamente, motivo pelo qual optamos, em comum acordo, desfazer o Grupo um ano após termos gravado nosso disco. De lá para cá pouca coisa mudou. Os meios de comunicação continuam soberanos a nos impor seus produtos, as novas tecnologias nos dão uma falsa sensação de liberdade diante das telas, grandes ou pequenas. Mas também, em contrapartida, os mais jovens estão curiosos, questionando ávidos informações sobre o passado, os ambientes urbanos estão a ficar cada vez mais complexos e violentos, e a sociedade como um todo nos cobra, a cada passo, atitudes de reflexão sobre o que é e não é verdadeiramente artístico nos “produtos” que “consumimos”. Em virtude disso, portanto, estamos retornando à arena, primeiramente no formato digital. Depois, veremos o que será possível realizar.

 

TEMPOS MUSICAIS NO GRUPO MARIA DÉIA DE 1976 A 1977

 

Ronaldo Florentino

 

O período em que estive no Maria Deia (1976-1977) correspondeu, na conjuntura política, à chamada distensão promovida por Geisel que, no entanto, sofria oposição dos militares linha dura. Aconteciam medidas liberalizantes e, logo, medidas autoritárias para agradar os militares que queriam prosseguir com a dura repressão instituída pelo AI 5. O reconhecimento do governo português instalado após a Revolução dos Cravos , assim como o reatamento de relações diplomáticas com a China, que desagradou os radicais, se opunha , por outro lado, à proibição da propaganda eleitoral em rádio e televisão, para conter o crescimento do MDB . A morte do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do DOI CODI mostrou o bolsão de resistência à abertura política e criou uma crise no comando militar e entre este e o governo. O Brasil devia muito, o crescimento econômico e o emprego haviam caído e o movimento dos trabalhadores liderados por Lula no ABC aparecia como mais um problema a ser administrado para tornar possível a distensão pretendida sem provocar uma reação forte dos radicais. Do lado da população esclarecida o receio do retrocesso aos tempos de Médici era um estresse vivido diariamente. Pisava-se em ovos. Em relação à música eu me lembro de ter feito meu primeiro show integrando o Maria Déia no MAM e que a música Lampião provocava uma reação bastante politizada da platéia, que ia ao delírio no final da música : ‘’ Pra fazer de Lampião..... gunvernador do Brasil’’. Tambem o Parabien, Retallada e o Fado encontravam na platéia uma recepção especial, claramente desejosa de uma mudança política. O ‘’transtorno bipolar’’ do governo Geisel, ora agradando a linha dura militar, ora agradando os partidários da abertura, não nos criava um ambiente totalmente seguro no palco e na criação, o que fazia com que as metáforas ainda fossem bastante utilizadas em nossas letras ( e de todos os compositores engajados), e nisso a falta de cultura e inteligência dos censores nos ajudava o suficiente para não sermos afetados durante os shows. Como eles entenderiam as palavras, tão belas quanto trágicas, e radicalmente políticas, contidas nos versos de Alberto de Castro(nome usado na época): ‘’ da música resta o estalo/ dos corpos fazendo regalo/ aos dentes de algum jaguar’’ ? Por outro lado, afetados pela política de rádios e gravadoras que atendiam aos propósitos da invasão da cultura americana em detrimento da nossa – o que iria se agravar drasticamente nos anos 80 - estávamos limitados ao circuito dos trabalhos independentes, integrados ao chamado 02, abrindo shows para os ‘’consagrados’’ do 01 que, já afetados pela invasão, se equilibravam como podiam. Muitos shows foram realizados em função da luta pelos direitos autorais, liderada por Sergio Ricardo, com o qual dividimos o palco do João Caetano no Projeto Seis e Meia. E foi Sergio Ricardo quem nos convidou para integrar o elenco de ‘’Ponto de Partida’’, de Gianfrancesco Guarnieri, uma fábula sobre o assassinato de Vladimir Herzog. Na estréia, numa das primeiras filas , estava Clarice Herzog, a viúva do jornalista. O fato de a temporada ter transcorrido sem repressão evidenciou que os radicais militares haviam dado um tiro no próprio pé (por um tempo, eles também pisavam em ovos). Ficamos três meses em Sampa e depois fomos para o Rio cumprir agenda no interior do estado com o Pacote Cultural da Secretaria do Estado. No inicio de 1977 voltamos ao espetáculo em temporada de 15 dias no João Caetano. Nas minhas impressões individuais ficaram os primeiros encontros com Sergio Ricardo em sua casa na Urca, o programa com Sidnei Miller na TV Educativa e o primeiro encontro com Guarnieri em Sampa, pelo tanto que eles representam na cultura brasileira. Trabalhar com eles foi um privilégio tão grande quanto ter desfrutado da companhia de talentos profissionais como Chico Moreira e Alberto Chicayban. Algumas curiosidades : (para consumo interno, talvez) Chico Buarque entrando no nosso camarim no João Caetano , após a estréia de Ponto de Partida, parando com olhar fixo em nós por uns dez segundos e saindo sem dizer uma palavra. Acho que estava procurando o camarim do Guarnieri. Marta Overback nas coxias do TAIB em Sampa, concentradíssima, andando com seu chicote de um lado pro outro e repetindo alguns textos da peça O tambor do Beto furando na hora que ele daria uma deixa sonora para Othon Bastos dizer o texto. Ao ouvir o som ridículo, Othon, que fazia um cego, moveu ligeiramente o rosto como se quisesse ouvir melhor. Ruy Guerra socorrendo a produção e fazendo a luz na estréia. Guarnieri parando o ensaio pra assistir um jogo do Corintians. Eu, Chico e Beto, após uma apresentação numa casa de correção de menores em Campos, guiando os meninos para fora do salão enquanto cantávamos. Ao chegar no pátio e vendo o portão aberto, numa comunicação de olhar instantânea, tomamos a direção da saída. Os seguranças correram para fechar o portão enquanto os garotos gritavam de satisfação. Um show com um artista plástico e uma bailarina no MAM que ensejou o título da crítica de Antonio Crisóstomo no JB : ‘’Salva-se a música’’ Nossas seis horas de ensaio por dia: Quatro de música, duas de prosa boa, que ninguém é de ferro. 

 

 A PRAÇA QUE FOI NOSSO REDUTO E O INÍCIO DE TUDO

 

Aloysio Iaggi

 

Niterói, na década de 70, era uma cidade universitária com uma integração enorme entre as diferentes Faculdades da UFF bem como destas com os moradores da maioria dos bairros.

A reitoria ficava no mesmo lugar de hoje, no início da Praia de Icaraí, na esquina com a rua Miguel de Frias, num ponto muito acessível com bares, restaurantes, cinemas e a Praça Getúlio Vargas em frente ao prédio da Universidade Federal Fluminense. A integração se deu basicamente nessa praça e a partir dela.

No Ingá, bairro seguinte a Icaraí e entre este e o Centro da cidade tínhamos as Faculdades de Direito e Engenharia.

No Centro, quase em frente às “Barcas”,  que fazem a travessia de Niterói para o Rio de Janeiro,  ficavam o Diretório Estudantil e as Faculdade de Matemática, Química  e a  Física. Dava para fazer tudo a pé. ú

Daí, cruzando a Rua Dr. Celestino, chegávamos, no meio do caminho, às sedes antigas das Faculdades de Letras, História, Geografia e Ciências Sociais e no final, já na Av. Marquês de Paraná à Faculdade de Medicina e ao Hospital Universitário. Um pouco mais longe, perto do largo do Marrão ficava a Faculdade de Odontologia.

É importante comentar que estávamos no auge da ditadura militar, logo após a implantação do AI 5. Nessa época a repressão policial era pesada,  existiam jovens informantes da ditadura infiltrados nas universidades, capazes de circular pelos lugares frequentados pela juventude da época para escutar conversas.

Muitos dos estudantes eram de cidades próximas, da região serrana, do norte do estado, morando em pensões e quartos de aluguel, que precisavam de locais de encontro nas horas de folga para conversar sobre estudo, política, mudanças de comportamento decorrentes da liberação sexual e da forte influência dos Beatles e de toda a juventude mundial, num período de grandes mudanças.

O bairro seguinte a Icaraí no sentido da boca da barra era o de São Francisco, também muito próximo e que acabou sendo como uma continuação noturna de Icaraí, com bares, restaurantes e casas de música que também reunia muita gente na orla.

Na praça, que ficava em frente à Reitoria, existia o Cinema Icaraí, de grande frequência e o Petit Paris, um bar e restaurante que apresentava muitos shows com músicos da terra ou pessoal da bossa nova carioca.  

Existia também um hotel bem simples ao lado do Petit Paris que era mais um alojamento de estudantes da UFF que vinham de outros cantos. Outro hotel, na Rua Miguel de Frias, o City Hotel, foi um antepassado dos atuais motéis. 

Na Rua Miguel de Frias que terminava entra a Praça e a Reitoria havia a  pizzaria  Gruta de Capri, restaurante preferido da época, e um bar, onde hoje é o Nakami, em que a turma da cerveja ficava batendo papo.

Do outro lado da rua, na esquina com a praça, ficavam, um ao lado do outro, o bar  Beiras,  na esquina da Rua Miguel de Frias e o bar Chalé, também muito concorridos. Alguns desses existem até hoje, outro viraram prédios, a praça mudou um pouco e não funciona mais como local de encontro para música e discussões políticas e filosóficas.

Dá para citar Sérgio Mendes, MPB4, Marilia Medalha , os Lobos e vários outros niteroienses, assim como Milton Nascimento, Egberto Gismonti,  e tantos vindos do Rio de Janeiro, como exemplos de pessoas que eram iniciantes no mundo da música profissional e que apareciam na praça para conversar e mostrar seus trabalhos.  Essas exibições improvisadas aconteciam sob  um caramanchão da praça normalmente nos fins de semana à noite, mas podiam também acontecer em outras ocasiões, durando diversas horas, independentemente da presença de pessoas interessadas ou não. Eram principalmente momentos de intercâmbio, de livre troca de  informações e opiniões. Podíamos pedir conselhos sobre uma melodia ou uma harmonia,  mostrar uma composição ou uma letra aos amigos, quem sabe achar uma parceria para um samba ou uma canção qualquer.  Não obstante o momento político pelo qual o País passava,  procurávamos viver da maneira mais livre possível e aquela praça era o nosse reduto, mesmo com as visitas periódicas da polícia que chateava pedindo documentos a quem se encontrava ali.

No Clube de Regatas Icaraí, quase ao lado da Reitoria, em frente à praia, tínhamos o Festival Niteroiense de Música e no Caio Martins o festival Fluminense de Música. Em ambos, muitos músicos que ficaram famosos concorreram com suas composições. Os festivais eram muito famosos na época e a Televisão acabou encampando alguns dos mais importantes.  

A Reitoria tinha, em sua frente, um Teatro que foi muito usado para apresentações, onde quem chegasse tocava e as surpresas eram grandes. No final da alameda lateral ficava o Cinema da Reitoria. muito frequentado e que passava os filmes mais “culturais”.

Dá para se imaginar a quantidade de gente que aparecia nesse lugar e que lá ficava do entardecer até a madrugada do dia seguinte. Os que moravam em Niterói, assim que o movimento da praça terminava, iam em grupos para o calçadão da praia e conversavam até cansar e ir dormir.

É nesse ambiente e nesse momento político que quatro rapazes que gostavam de tocar na praça e fora dela começaram a estreitar uma amizade que acabou, naturalmente, virando um quarteto musical e com composições na maioria próprias, que eram ensaiadas na casa de cada um deles ou onde fosse conveniente. Esse quarteto mais tarde teve o nome de Grupo Maria Déia. Absorvemos as influencias de pessoas que tinham muito a dizer e frequentavam aquela praça, que ao tempo não possuía as grades que vemos hoje.